Italianos se revoltam com ICE na segurança das Olimpíadas de Inverno
A confirmação de que agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) vão desempenhar um papel de apoio à segurança durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, na Itália, está provocando indignação pública e pedidos formais para barrar a presença do ICE no evento.
A agência de imigração norte-americana confirmou que sua Divisão de Investigações de Segurança Interna (HSI) estará envolvida no evento, esclarecendo contudo que "todas as operações de segurança permanecem sob a autoridade italiana" e que "obviamente não realizará operações de fiscalização de imigração fora dos Estados Unidos", segundo o jornal britânico The Guardian.
Ainda assim, a notícia desencadeou uma forte reação na Itália, alimentada pelo histórico recente do ICE nos Estados Unidos.
No mês de janeiro, agentes do ICE atiraram e mataram dois cidadãos estadunidenses em Minneapolis: Alex Pretti, de 37 anos, morto no sábado passado; e Renee Good, também 37, baleada e morta no último dia 7.
No mesmo contexto, dois jornalistas da televisão pública italiana Rai reportaram que foram ameaçados por agentes do ICE enquanto cobriam operações em Minneapolis. Segundo a reportagem, um agente advertiu que o vidro do carro da equipe seria quebrado, caso continuassem a filmar.
O prefeito de Milão, Beppe Sala, foi uma das vozes mais críticas em relação ao envolvimento da agência.
"Esta é uma milícia que mata. É evidente que eles não são bem-vindos em Milão. Será que não podemos simplesmente dizer não a Trump de uma vez por todas?", disse à emissora de rádio RTL citado pelo The Guardian.
Em declarações posteriores, reforçou "que (os agentes do ICE) não deveriam vir para a Itália porque não há garantias de que eles se comportarão conforme nossa forma democrática de garantir a segurança".
Inicialmente, o ministro italiano do Interior, Matteo Pantedosi, minimizou a questão, dizendo que mesmo que agentes estivessem presentes, isso não seria um problema. Seria "perfeitamente normal", já que delegações estrangeiras podem escolher a sua própria segurança.
Contudo, diante do crescimento da polêmica, adotou uma posição mais firme, dizendo que "o ICE certamente não vai operar em território nacional italiano" e sublinhou que a segurança do evento é garantida pelo Estado italiano.
Os EUA, acrescentou, não divulgaram uma lista de pessoal de segurança.
A controvérsia se intensificou-se após o governador da Lombardia, Attilio Fontana, afirmar que o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio, seriam protegidos por "guarda-costas do ICE" durante os Jogos Olímpicos.
Segundo a BBC, Fontana procurou acalmar os ânimos, sugerindo que a presença do ICE estaria limitada à proteção de JD Vance e do secretário de Estado dos EUA.
"Nós mesmos podemos cuidar da segurança. Não precisamos do ICE"
A oposição política aproveitou o episódio para criticar o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni.
A senadora Barbara Floridia, do Movimento Cinco Estrelas, alertou que o silêncio do governador da Lombardia seria "mais uma prova de covardia e subserviência a Donald Trump".
Já Alessandro Zan, eurodeputado do Partido Democrático, escreveu em sua rede social X que a presença do ICE seria "inaceitável".
"Na Itália, não queremos aqueles que pisoteiam os direitos Humanos e agem fora de qualquer controle democrático", afirmou.
Dois partidos da oposição, a Aliança Verde e de Esquerda (AVS) e a Azione, lançaram abaixo-assinados exigindo que o governo italiano e o comitê organizador dos Jogos Olímpicos de Inverno impeçam a entrada e o envolvimento de agentes do ICE.
"O ICE é a milícia que atira em pessoas nas ruas de Minneapolis e separa crianças de suas famílias", declarou a AVS.
O jornal italiano La Repubblica noticiou que o governo italiano chegou a considerar bloquear a participação dos agentes. A decisão, no entanto, exigiria uma mudança significativa nos protocolos habituais de proteção a autoridades norte-americanas em visitas oficiais ao exterior, segundo o The Guardian.
O ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, tentou miniizar a tensão. "Não é como se a SS estivesse chegando à Itália", disse ao se referir à organização paramilitar nazista da Alemanha.
"Eles não estão vindo para manter a ordem pública nas ruas. Estão vindo para colaborar nas salas de operações."
Apesar das garantias oficiais, o prefeito de Milão manteve a sua posição: "Nós mesmos podemos cuidar da segurança. Não precisamos do ICE", afirmou Beppe Sala, resumindo o sentimento de uma parte significativa da opinião pública italiana à medida que se aproxima a abertura dos Jogos, no próximo dia 6 de fevereiro.
Fonte: Agência Brasil
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